(título respeitosamente roubado
do texto inspirador de autoria de Felipe Balster)
Coisas acontecem que me deixam
particularmente puto. O caso de maus tratos do yorkshire da enfermeira é uma
delas. Só que pelo motivo diametralmente oposto à histeria demonstrada pelo
povo das chamadas “redes sociais”.
A enfermeira estava em um “dia ruim” e
espancou seu cão indefeso até a morte. Cabe aqui toda a legislação sobre maus
tratos a animais e suas decorrentes punições previstas em lei. Não é
assassinato nem homicídio como bradam os zoófilos por aí. Assassinato é o ato
deliberado de tirar a vida humana extra-uterina, ou seja: de outro ser humano. Está
lá nos códigos criminais. Ponto.
Por mais que pareça justo aos defensores
da lei de talião, nem ela própria determinaria a pena de morte a um ser humano
em decorrência da morte de um animal. Olho por olho, dente por dente. Coisas
equivalentes, o que aqui não é obviamente o caso. (Se para você a vida dela vale menos de que a do cãozinho, sugiro parar de ler este texto por aqui. Não perca seu tempo e nem me faça perder o meu. Esse texto não é para você) Parece idiotice escrever isso,
mas fico me perguntando o quanto a humanidade evoluiu (involuiu?) em pensamento
nesse intervalo de quatro mil anos entre a publicação desta lei no reino da
Babilônia e os posts chamando a enfermeira de “assassina”.
O que mais me espanta é a
incomensurável hipocrisia, de um lado das mulheres que não admitem a
justificativa do “dia ruim” ao mesmo tempo em que se sentem plenamente
justificadas pelo largo espectro das TPM, depressão pós-parto ou outra
alteração hormonal/psiquiátrica qualquer quando destroem os laptops dos
namorados, riscam os automóveis dos maridos, cortam a cabeça dos filhos com uma
serra elétrica ou trancam os filhos no porta-malas do carro e o jogam num lago.
O que também é incrível de
perceber nas reações desmesuradas, é a “realidade dual” (aiai...) aplicada em
todos os casos parecidos. Ou você defende incondicionalmente os animais ou é um
espancador-canalha-sem-vergonha-que-merece-a-morte. Não há meio termo. Parece
não ser possível a essa gente que você tenha animais de estimação e os trate
com carinho e respeito, mas entenda que a vida humana é mais importante. Toda
vida humana. Até a vida de um provável terrorista zoófilo que resolva espancar
a enfermeira até a morte achando que a justiça está sendo feita.
Para essas pessoas de mentalidade rasa, não é possível por exemplo defender que não se deve tripudiar a respeito do câncer do ex-presidente Lula, sem que de acordo com a lógica torta dessas mentes, estar levando alguma grana do PT.
Onde foi parar o bom senso? É
óbvio que a enfermeira tem problemas e agiu abaixo da moral e da ética, sob
todos os pontos de vista. Ela cometeu um crime tipificado por legislação. Ela
deve pagar pelo que fez nos termos que a lei vigente neste país determina. O linchamento
moral não pode vir acompanhado como bônus na pena. Queria crer que é evidente
que não defendo os maus tratos a qualquer animal que seja, mas infelizmente, o
bom senso passa longe desses defensores radicais. Me parece mais fácil deixar
de ler este texto ou tentar pensar com clareza do que se deixar levar pelo calor da
comoção barata e pelo furor do momento.
Parece irônico, mas existem
pessoas que comem picanha sem se importar de onde elas vêem, mas em se tratando
de cães, seu racionalismo se dissipa como vapor. Tratam animais como se pessoas
fossem, atribuindo-lhes todo o tipo de reação “humanoide” para justificar esse
especismo nojento. Pessoas que beijam e deixam-se lamber na boca não só sem se
importar com os mínimos costumes sanitários civilizados, mas justificando com
isso que “meu cachorro tem a boca mais limpa de que muita gente”. Existe
cegueira maior que isso?
Em contrapartida, existem pessoas
que não aplicam esse especismo, e defendem o sacramento da vida de todos os
animais, independente de que eles pareçam “bonitinhos” aos humanos ou não. Mas
não se enganem, pois eles caem no radicalismo ridículo de defender, por exemplo, que não se
produzam mais pérolas pois as ostras sofrem com isso...
Tudo isso sem adentrar muito
profundamente na empulhação gigante a que essa gente se sujeita, quando impõem
aos seus animais (sim... animais!) o escrutínio dos pseudo-médicos
especializados e seus exames apuradíssimos, aos psicólogos-veterinários e seus florais-de-bach,
aos pet centers cheios de badulaques fúteis e inúteis, roupas, calçados,
artigos de belezas, enfeites, rações especializadas dependendo da cor do animal
e que custam por quilo dez vezes mais do que filet mignon... Realmente, quem
apostar na iminente imbecilização das massas vai ganhar muito dinheiro.
Sem dúvida, essa confusão entre a
importância subjetiva da vida de um animal em detrimento à de um ser humano é
fruto de disfunção psiquiátrica. Fica fácil enxergar que esse comportamento existe em função de carência afetiva, seja dos pais, parentes, amigos, namorados, maridos,
ou do mundo todo enfim. Uma misantropia generalizante, acompanhada da tentativa
de substituição do afeto humano que falta por um afeto animal vindo de algo que
se pode controlar.
Seus pais não ligam pra você? Peça
um Lhasa-apso de presente. Seu namorado não abana o rabo quando você estala os
dedos? Compre um Golden. Ninguém quer te namorar? Compre uma Dogue alemã. Seu
marido não lhe dá atenção? Compre um Rottweiler. Não quer ter filhos? Compre um
casal de Labradores. Todos eles são mais fáceis de controlar e têm reações
previsíveis, ao contrário dos seres humanos que têm vontade própria, não? Além é
claro de uma fidelidade “canina”, difícil de encontrar em gente, não é mesmo?
Tenho certeza que são esses os
casos que simplesmente descambam da zoofilia para o bestialismo.
A inadequação que essas pessoas
sentem em relação ao seu desencanto com a humanidade é patética. A tentativa de
substituição dos prazeres e desprazeres da convivência humana pela companhia previsível
e controlável de um animal é triste. Se for acompanhada da frase de que “esse
cãozinho é melhor que muita gente” então, é caso de lobotomia.
Não é à toa que existem terapias
que envolvem a convivência com animais para pessoas com déficit de inteligência
e desenvolvimento ou sérios problemas psicóticos.
