domingo, 18 de dezembro de 2011

Anti-pet


(título respeitosamente roubado do texto inspirador de autoria de Felipe Balster)

Coisas acontecem que me deixam particularmente puto. O caso de maus tratos do yorkshire da enfermeira é uma delas. Só que pelo motivo diametralmente oposto à histeria demonstrada pelo povo das chamadas “redes sociais”.

A enfermeira estava em um “dia ruim” e espancou seu cão indefeso até a morte. Cabe aqui toda a legislação sobre maus tratos a animais e suas decorrentes punições previstas em lei. Não é assassinato nem homicídio como bradam os zoófilos por aí. Assassinato é o ato deliberado de tirar a vida humana extra-uterina, ou seja: de outro ser humano. Está lá nos códigos criminais. Ponto.

Por mais que pareça justo aos defensores da lei de talião, nem ela própria determinaria a pena de morte a um ser humano em decorrência da morte de um animal. Olho por olho, dente por dente. Coisas equivalentes, o que aqui não é obviamente o caso. (Se para você a vida dela vale menos de que a do cãozinho, sugiro parar de ler este texto por aqui. Não perca seu tempo e nem me faça perder o meu. Esse texto não é para você) Parece idiotice escrever isso, mas fico me perguntando o quanto a humanidade evoluiu (involuiu?) em pensamento nesse intervalo de quatro mil anos entre a publicação desta lei no reino da Babilônia e os posts chamando a enfermeira de “assassina”.

O que mais me espanta é a incomensurável hipocrisia, de um lado das mulheres que não admitem a justificativa do “dia ruim” ao mesmo tempo em que se sentem plenamente justificadas pelo largo espectro das TPM, depressão pós-parto ou outra alteração hormonal/psiquiátrica qualquer quando destroem os laptops dos namorados, riscam os automóveis dos maridos, cortam a cabeça dos filhos com uma serra elétrica ou trancam os filhos no porta-malas do carro e o jogam num lago.

De outro lado os homens, que aceitam passivamente a histeria de suas próprias mulheres e namoradas em nome de uma convivência possível e do sexo garantido, mas não admitem quando o mesmo acontece com outro casal.

O que também é incrível de perceber nas reações desmesuradas, é a “realidade dual” (aiai...) aplicada em todos os casos parecidos. Ou você defende incondicionalmente os animais ou é um espancador-canalha-sem-vergonha-que-merece-a-morte. Não há meio termo. Parece não ser possível a essa gente que você tenha animais de estimação e os trate com carinho e respeito, mas entenda que a vida humana é mais importante. Toda vida humana. Até a vida de um provável terrorista zoófilo que resolva espancar a enfermeira até a morte achando que a justiça está sendo feita.

Para essas pessoas de mentalidade rasa, não é possível por exemplo defender que não se deve tripudiar a respeito do câncer do ex-presidente Lula, sem que de acordo com a lógica torta dessas mentes, estar levando alguma grana do PT.

Onde foi parar o bom senso? É óbvio que a enfermeira tem problemas e agiu abaixo da moral e da ética, sob todos os pontos de vista. Ela cometeu um crime tipificado por legislação. Ela deve pagar pelo que fez nos termos que a lei vigente neste país determina. O linchamento moral não pode vir acompanhado como bônus na pena. Queria crer que é evidente que não defendo os maus tratos a qualquer animal que seja, mas infelizmente, o bom senso passa longe desses defensores radicais. Me parece mais fácil deixar de ler este texto ou tentar pensar com clareza do que se deixar levar pelo calor da comoção barata e pelo furor do momento.

Parece irônico, mas existem pessoas que comem picanha sem se importar de onde elas vêem, mas em se tratando de cães, seu racionalismo se dissipa como vapor. Tratam animais como se pessoas fossem, atribuindo-lhes todo o tipo de reação “humanoide” para justificar esse especismo nojento. Pessoas que beijam e deixam-se lamber na boca não só sem se importar com os mínimos costumes sanitários civilizados, mas justificando com isso que “meu cachorro tem a boca mais limpa de que muita gente”. Existe cegueira maior que isso?

Em contrapartida, existem pessoas que não aplicam esse especismo, e defendem o sacramento da vida de todos os animais, independente de que eles pareçam “bonitinhos” aos humanos ou não. Mas não se enganem, pois eles caem no radicalismo ridículo de defender, por exemplo, que não se produzam mais pérolas pois as ostras sofrem com isso...

Tudo isso sem adentrar muito profundamente na empulhação gigante a que essa gente se sujeita, quando impõem aos seus animais (sim... animais!) o escrutínio dos pseudo-médicos especializados e seus exames apuradíssimos, aos  psicólogos-veterinários e seus florais-de-bach, aos pet centers cheios de badulaques fúteis e inúteis, roupas, calçados, artigos de belezas, enfeites, rações especializadas dependendo da cor do animal e que custam por quilo dez vezes mais do que filet mignon... Realmente, quem apostar na iminente imbecilização das massas vai ganhar muito dinheiro.

Sem dúvida, essa confusão entre a importância subjetiva da vida de um animal em detrimento à de um ser humano é fruto de disfunção psiquiátrica. Fica fácil enxergar que esse comportamento existe em função de carência afetiva, seja dos pais, parentes, amigos, namorados, maridos, ou do mundo todo enfim. Uma misantropia generalizante, acompanhada da tentativa de substituição do afeto humano que falta por um afeto animal vindo de algo que se pode controlar.

Seus pais não ligam pra você? Peça um Lhasa-apso de presente. Seu namorado não abana o rabo quando você estala os dedos? Compre um Golden. Ninguém quer te namorar? Compre uma Dogue alemã. Seu marido não lhe dá atenção? Compre um Rottweiler. Não quer ter filhos? Compre um casal de Labradores. Todos eles são mais fáceis de controlar e têm reações previsíveis, ao contrário dos seres humanos que têm vontade própria, não? Além é claro de uma fidelidade “canina”, difícil de encontrar em gente, não é mesmo?

Tenho certeza que são esses os casos que simplesmente descambam da zoofilia para o bestialismo.

A inadequação que essas pessoas sentem em relação ao seu desencanto com a humanidade é patética. A tentativa de substituição dos prazeres e desprazeres da convivência humana pela companhia previsível e controlável de um animal é triste. Se for acompanhada da frase de que “esse cãozinho é melhor que muita gente” então, é caso de lobotomia.

Não é à toa que existem terapias que envolvem a convivência com animais para pessoas com déficit de inteligência e desenvolvimento ou sérios problemas psicóticos.

Um comentário:

felipe balster disse...

boa, joãomarquito... Daqui 200 anos, as pessoas vão ler sobre os costumes dos seculos XX e XXI sobre animais de estimação, e vão rir... Do mesmo modo que rimos dos costumes das pessoas de 200 anos atrás...