quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Pequim 2008 I

As olimpíadas de pequim no mês de agosto deste ano prometem ser um acontecimento incomparável, tanto pela fama de perfeccionismo do povo chines quanto no trabalho e valores investidos. Basta ver as construções com projetos super elaborados executadas com fim único de abrilhantar os jogos.
Mas nem só com prédios a China quer impressionar o ocidente. Existe também uma forte campanha do governo com fins de eliminar alguns constumes do povo chinês, execráveis aos nossos olhos (escarradas em público, banheiros compartilhados, alimentos exóticos...), além de trânsito verdadeiramente caótico e poluição inacreditável, e tudo daquele jeito especial que o governo "comunista" da China tem de lidar com imposições...
A impecável organização dos jogos é para o governo chinês uma demonstração de força e poder para nós ocidentais. Como se isso fosse preciso e o mundo todo não estivesse espantado com o crescimento econômico, populacional, militar e a área de influência da "Uma só China" (política governamental que "agrega" à China continental Hong Kong, Macau, Taiwan e o Tibete. À força... se for preciso...)
É aí que entra uma pequena estória:
Em 25 de abril deste ano, três ativistas substituiram a bandeira chinesa do acampamento base do pico Everest pela bandeira Tibetana, e em seguida uma enorme faixa com os dizeres "Olympic Games 2008 - One World, One Dream - Free Tibet" (Jogos Olímpicos 2008 - Um Mundo, Um Sonho - Tibete Livre). Tudo filmado e distribuido pelo YouTube. As autoridades chinesas ficaram enfurecidas e perseguiram, prenderam e deportaram os ativistas (dois americanos e um tibetano), a agênciadora de turismo contratada por eles para a viagem foi fechada e o motorista que os levou de Lhasa (capital do Tibete) até a base teria sido preso se não fosse chinês.
Desde então, qualquer estrangeiro ocidental é tratado com absoluta desconfiança pelo governo chinês do Tibete.
Em outubro de 1950, o governo militar maoísta da China invadiu o Tibete - até então uma nação soberana e com tratados seculares de paz e definição de fronteiras com a própria China- com o pretexto de "libertar o povo tibetano do imperialismo inglês", já que na época havia certa influência da Grã-Bretanha no país. Desde então, mais de 1 milhão de tibetanos foram mortos, entre eles milhares de monges budistas, centenas de monastérios foram destruídos e o governo do Dalai Lama destituído - o que ocasionou sua fuga para a Índia, onde mantém um governo no exílio.
Mas o pior vem acontecendo incessantemente desde julho de 2006 com a inauguração da estrada de ferro Pequim-Lhasa.

(continua no post seguinte...)

Pequim 2008 II

(continuação do post anterior...)
O trem chega a Lhasa diariamente cheio, mas volta com a metade dos passageiros. Dados recentes informam que 75% dos habitantes da capital são de origem chinesa e só 13% são tibetanos de nascimento (o restante são estrangeiros das mais diversas etnias).
Os empregos públicos e regalias no comércio são dadas somente a chineses. Nas escolas só se ensina o idioma chinês em detrimento do tibetano. A cultura e a tradição tibetanas estão sendo substituidas pelas chinesas. A religião budista de tempos imemorias no Tibete é reprimida.
Os tibetanos estão sendo excluídos em sua própria terra!
Mais que uma transmigração, o que está havendo é um verdadeiro genocídio humano e cultural.
Os turistas ocidentais são "desestimulados" a visitar o país através da terrível burocracia chinesa que funciona exemplarmente neste caso, só o podem fazer "oficialmente" acompanhados por guias "licenciados" pelo governo chinês. Fotografias e visitas a alguns pontos turísticos são proibidas - no Palácio Potala só se pode visitar algumas alas e, o itinerário obrigatório segue do leste para o oeste, só para contrariar a tradição tibetana de milênios de forma sutil e cruel.
Todo o contato dos tibetanos com os turistas ocidentais é vigiado e desestimulado pelas autoridades, pois os estrangeiros simpatizam com a causa tibetana.
Qualquer tibetano é preso se for encontrado em posse de fotos do Dalai Lama.
O Tibete sempre foi uma nação soberana, com história, bandeira, idioma, religião e cultura próprios. Sempre foi uma nação independente e não deveria fazer parte da China.
Mas está sendo agora "colonizado" pela China.
O próprio Dalai Lama abriu mão há tempos de suas reivindicações de independência para o Tibete. Luta agora somente por uma maior autonomia e respeito pelo governo chinês às tradições e religião do país. Mas a quase totalidade dos 1,3 bilhão de chineses foi convencida pela máquina de propaganda do governo que o Tibete "sempre fez parte" da "pátria mãe".
Os interesses da China sobre o Tibete têm como principal motivo as imensidões de terras férteis e as reservas gigantescas de água e de minérios em seu subsolo.
A China, oferecendo ao mundo o maior mercado consumidor potenical, além de produção de bens e fornecimento de mão de obra mais baratos que qualquer outro país, não está nem um pouco preocupada com a opinião do ocidente sobre o Tibete.
Mesmo sem haver liberdade de expressão, além de violações constantes dos direitos humanos na própria China continental e no Tibete, o mundo parece se calar.
Os jogos olímpicos serão uma vitrine e um marco histórico para a China. Todo ativista pró-Tibete está de olho na oportunidade de divulgar a causa do Dalai Lama em prol do povo Tibetano.
Por causa da imensa visibilidade que a mídia internacional dará ao evento, o governo chinês tomará medidas mais brandas contra manifestações durante o evento?
Duvido! Em outubro de 2007 o congresso americano condecorou e homenageou o Dalai Lama, o que enfureceu o governo chinês e quem sofreu foi o povo tibetano. O Monastério de Drepung -um dos três maiores do país - foi cercado pela polícia e fechado por 10 dias para evitar manifestações de apoio.
A repressão virá, e só resta confiar na coragem dos ativistas contra a mão pesada do governo chinês, para mostrar ao mundo na forma de escândalos internacionais se preciso, o total desrespeito às políticas de direitos humanos que vem ocorrendo no Tibete.

A propósito: seria possível um boicote a produtos chineses? Será que é viável não comprar ou consumir nenhum produto "made in china"?
Acho que sou partidário de mais uma causa perdida...

Informe-se mais aqui:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tibete
http://www.freetibet.org/ - (treine seu inglês...)

(informações transcritas da revista Época de 14/01/08 - Tibete, Paraíso e Inferno de autoria de Haroldo Castro, com todo respeito e admiração)

sábado, 12 de janeiro de 2008

Sinestesia

Li nesta quinta-feira no caderno Equilíbrio do jornal Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u361929.shtml) uma reportagem sobre um jovem inglês chamado Daniel Tammet, portador de um raro tipo de autismo, chamado Síndrome de Savant. Os portadores desta síndrome desenvolvem extrema facilidade para cálculos matemáticos além de uma memória prodigiosa, mas geralmente acompanhadas de incapacidade de relacionamento com o "mundo real".
Geralmente... mas não no caso de Daniel.
Ao conseguir superar as barreiras psicológicas de interação com outras pessoas, Daniel conseguiu explicar o que acontece em seu cérebro.
Cada número corresponde, em sua mente, a uma cor, textura, formato ou sentimento: o número um, por exemplo, é como um feixe de luz, já o cinco tem som de trovoada - reação conhecida como sinestesia. Ao fazer uma conta, essas cores e sons se misturam, e o resultado aparece diante de seus olhos, como uma nova imagem.
Incrível, não? Isso lhe confere uma facilidade de memorização fantástica, ao ponto de decorar as casas decimais do PI (relação constante entre o perímetro e o diâmetro de um círculo = 3,1415926535... - eu, que não sou autista decorei na época do colégio até aqui... 10 dígitos) com 22.514 dígitos, cuja recitação demorou mais de 5 horas... Uau! coisa de nerd?
Olha, não é só isso... leia a reportagem e perceba o quanto isso é fascinante!
Será que você, como eu, já duvidou que a sua percepção do mundo pode ser diferente das outras pessoas? Qual a garantia que essa percepção é igual para todo mundo? Nossa descrição pessoal da visão, tato, olfato, paladar, sentimentos e etc...?
Ninguém pode sentir por nós, cabendo unicamente como forma de compartilhamento destas sensações uma descrição literal sobre sentimentos únicos e extremamente pessoais.
Será que o "azul" que eu vejo é o mesmo que você vê?
Por isso sempre tive uma curiosidade enorme sobre os distúrbios da mente, sem ser mórbida, mas com um sentido terapêutico, de que elas acabam oferecendo uma janela para a interpretação do funcionamento da mente humana.
A reportagem também cita algumas características impressionantes sobre a influência que o distúrbio traz no comportamento das pessoas. Em busca de uma rotina que enquadrasse o mundo exterior à rigidez matemática de sua mente, Daniel quando bebê chorava quando o pai alterava seu caminho para levá-lo a creche. Na escola, ficava só em algum canto fazendo cálculos e memorizando coisas sem interagir com outros alunos, e achava que as pessoas eram muito "impresivíveis" em seu comportamento. Até hoje ele sente necessidade de impor "rituais" diários, tal como comer no café da manhã sempre 45 gramas de mingau... pesados numa balança eletrônica...
Longe de ser pitoresco ou engraçado, acho isso encantador, fascinante e digno de uma investigação profunda para saciar uma curiosidade sadia.
Por isso, comprarei o livro que ele escreveu "Nascido em um dia azul" (http://www.siciliano.com.br/livro.asp?tipo=2&id=694266&parc=JAC) e vou dar um jeito de ver um documentário inglês sobre sua vida "The Boy with the Incredible Brain" o mais rápido que eu puder... antes que minha TOC se desenvolva...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Eureka!

"...
A idéia básica está presente em diferentes linhas do Budismo: o que nos faz sofrer é o APEGO. Na vida, o apego se manifesta por uma reação de cobiça ou aversão. Queremos continuar sentindo o que nos dá prazer e não aceitamos sentir o que nos causa algum tipo de dor. Se aprendermos a arte do desapego - ou seja: não cobiçar o prazer e nem sentir aversão pela dor - , a fonte do sofrimento estanca. Para isso, precisamos compreender que a vida é IMPERMANÊNCIA. Que nada dura, nem o prazer nem a dor. É necessário realmente entender que tudo é efêmero e, portanto, só a IGNORÂNCIA nos leva a qualquer tipo de apego - e ao sofrimento.
A (meditação) é uma prática. Sem prática, os mestres acreditam que a filosofia se torna vazia, um exercício intelectual sem importância. ... é ensinado que Sidharta Gautama, o Buda histórico, teria percebido que cada reação de aversão ou cobiça causa uma espécie de nó em nosso corpo. E só removendo - fisicamente - esses nós, e não fazendo outros, poderíamos parar de sofrer. Como técnica, a (meditação) pode ser usada por adeptos de qualquer religião ou de nenhuma.
Um exemplo prosaico: eu adoro comprar sapatos. Buda poderia dizer que não é o sapato que compro - e Karl Marx concordaria... O que busco é repetir a sensação que sinto ao comprar um sapato. Não percebo que, por mais que gaste meu salário tentando transformar uma sensação prazerosa em permanente, ela vai passar e eu tou ter que gastar mais dinheiro para repeti-la. É cobiça, é apego. É ILUSÃO.
Se Buda tivesse conhecido esse mundo de consumo, provavelmente o veria como uma fonte permanente de sofrimento causado pela cobiça. NOS TORNAMOS ESCRAVOS DAS SENSAÇÕES, COM TODAS AS IMPLICAÇÕES NA VIDA QUE A ESCRAVIDÃO REPRESENTA. Uma pessoa pode passar a vida num emprego ruim, mas com um bom salário, só para ter a sensação efêmera causada pelo ato de consumo. Ou pelo poder que um cargo de chefia supostamente lhe dá. Ou pela sensação oposta, mas igualmente de apego, que é a idéia de que não sabe o que vai acontecer se tentar algo novo na vida.
Essa idéia a maioria de nós já ouviu por aí ou leu num livro de auto-ajuda. Mas compreender algo intelectualmente é fácil. Mudar é bem mais difícil. Quem faz anos de terapia às vezes se desespera porque já entendeu as razões que o levam a um tipo de comportamento destrutivo. Mas entender não é suficiente. Mudar é o processo mais difícil na vida, especialmente mudar o fundionamento da mente desde que nascemos. É aí que entra a técnica da (meditação).
... a parte mais difícil da prática: ser equânime. Observar, sem reagir, as sensações sutis e também as grosseiras. Na (meditação) essas são as duas únicas categorias para classificar as sensações. Eles não chamam sensações grosseiras de dor ou dizem que um arrepio de prazer é bom porque implicaria um julgamento da realidade, início do apego.
O objetivo é aprender a olhar o prazer e a dor com uma serenidade de quem sabe que tanto um quanto o outro vão mudar, passar. Isso não significa que vamos virar uma alface... é a paz interior conquistada pela consciência de que não podemos controlar nem o mundo nem os outros, mas podemos controlar como vamos lidar com o mundo e com os outros. Sem aversão ou cobiça, é possível viver o presente sem ansiedade pelo sofrimento futuro ou nostalgia pelo passado.
..."

(texto transcrito da Revista Época de 17/01/08, reportagem "O inimigo sou eu" de autoria de Eliane Brum, com todo respeito e admiração)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Dacar

A mais nova vítima da paranóia terrorista foi o Rally Lisboa-Dacar (que antes se chamava Paris-Dacar).
Por causa de supostas ameaças terroristas atribuidas a Al-Qaeda na Mauritânia, a mais longa etapa a ser percorrida no penúltimo país da rota do rallye deste ano.
Quatro turistas franceses foram assassinados no natal na Mauritânia e o governo francês emitiu um alerta a todo cidadão francês para que ou deixasse o país ou não viajasse para lá, além de impor firmes recomendações ao não acontecimento da prova.
A organização do rallye, a cargo da empresa francesa "Amaury Sport", "se sentiu obrigada" a cancelar o evento, que vinha sendo realizado há 29 anos initerruptamente.
Somam 47 as mortes diretamente atribuidas ao rallye, somente 2 delas não causadas por acidentes e sim por atentados. Uma pessoa atingida por um tiro enquanto pilotava seu caminhão e outra vítima de uma mina que explodiu sob seu caminhão. Ambas me parecem mais ligadas aos eternos conflitos etnicos que sempre permearam o continente africano do que diretamente ao Al-qaeda.
Em várias edições do rallye algumas etapas inteiras foram canceladas e os veículos seguiram em comboio ou mesmo embarcados em aviões para se evitar os conflitos locais.
Não parece claro que ao simplesmente cancelar todo o evento não se dará muito maior visibilidade às supostas "causas terroristas" do que se simplesmente alterar algumas etapas como já foi feito antes???
Não é absolutamente contra-producente se dobrar à paranóia anti-terrorista e arcar com o prejuízo total do cancelamento do rallye, quer seja financeiro, da imagem do evento e dos organizadores, dos países envolvidos, das fábricas e das equipes participantes (a Petrobrás investiu 2 milhões de dólares) dos pilotos/navegadores e do esporte em geral?
Será que a partir de agora, dado o sucesso e visibilidade alcançada em toda mídia, qualquer zé-mané não vai ter a brilhante idéia de usar o atentado ao esporte para dar publicidade à sua causa, seja ela qual for?
Thierry Sabine, o idealizador e primeiro organizador do Paris-Dacar (morto em um acidente de helicóptero durante a prova de 1986) deve estar se revirando no túmulo...

sábado, 5 de janeiro de 2008

In Rainbows

Sou suspeito como fã do Radiohead p/ julgar a maneira inovadora do lançamento do novo album da banda "In Rainbows". Mas tenho bom senso... não gostei nada do "Amnesiac"... mas acho que se só fosse possível p/ mim salvar um único cd de uma hecatombe nuclear, seria sem dúvida o "Ok Computer".
Bem... começa que eu de tanto aguardar um novo trabalho dos caras fui pego de surpresa, e só consegui os mp3 do álbum através de um amigo meu que comprou (pagou uma libra, o sovina!) mas me pediu p/ fazer o download... e eu obviamente fiz uma cópia p/ mim.
Dez músicas, todas bacaninhas mas só gostei mesmo de quatro delas: Nude, Weird Fishes_Arpeggi, All I Need, e House of Cards (a melhor e a que mais lembra o "velho" Radiohead antes das esquisitices).
Mas a polêmica sobre a maneira da distribuição do novo álbum é que foi legal...
Então agora a EMI acusa o grupo de exigir uma quantia astronômica p/ renovar o contrato e ela, a gravadora foi quem "dispensou" o Radiohead...? Hahahahahaha!
Na verdade, a coisa é mais séria e a negociação (segundo o empresário da banda) envolvia o controle pelo grupo dos direitos autorais de todas as músicas já gravadas... e é claro que a EMI não topou...
E aí o grupo lançou o novo álbum no site da banda com download liberado ("pague o quanto quiser") e zilhões de pessoas baixaram, algumas pagaram... outras não...
Dinheiro limpo na mão da banda, sem passar pela gravadora...
Desde que era adolescente desconfiava que, mais que meios para proporcionar a um artista compor e tocar música com qualidade e garantia de distribuição, as gravadoras influenciavam diretamente na "alma" do artista. Era uma troca que me parecia injusta com o músico nos altos e baixos da inspiração ao longo de sua carreira.
E agora, com a quase extinção dos cds, estamos vendo uma possível extinção das gravadoras enquanto dinossauros onipotentes do mundo da música.
Cada vez mais artistas estão gerenciando suas próprias carreiras, no que me parece um caminho sem volta.
Chegará o dia no qual poderemos comprar "oficialmente" somente as músicas que quisermos e de todos os artistas que quisermos por um preço razoável? Sem precisar de um programa ou tocador desta ou daquela marca, sem precisar de cartão de crédito internacional e sem ser tachado de bandido?
Tenho consciência de que preciso pagar pelo resultado de um trabalho artístico e existe uma cadeia de trabalhadores que dependem disso (além é claro do artista). Mas R$35 um cd?
R$60 um dvd? R$150 um game? Vão p/ PQP!!!
Nem quero saber se a causa são os altos impostos do governo ou a fome insaciável por lucro das empresas... Se a coisa continuar assim, quero mais é que as lojas de cds fechem, as gravadoras fechem e todo mundo faça download pirata mesmo.
Embora as gravadoras e estúdios de cinema tenham todo o direito de espernear, processar adolescentes por download ilegal ou obrigar o povo a ver "terrorismo de stabilishment" (na forma daqueles filminhos asquerosos antes do cinema ou dvd na qual quem faz ou compra produtos piratas é acusado covardemente de contribuir com a violência, tráfico etc) é um golpe baixo esclarecedor do desespero de causa. Acusar e ameaçar o consumidor do seu próprio produto..? tsk tsk tsk...
É incrível a força que a internet proporcionou às idéias subversivas de um modo geral!
Viva a internet! Viva o Google! Viva o LimeWire!

Política EUA

Apesar do intrincado sistema de prévias eleitorais (e da própria eleição) dos EUA, a coisa toda em Iowa p/ mim já estava escrita...
Aliás, porque será que o país "mais avançado do mundo" tem um sistema eleitoral tão arcaico?... até o Brasil tem urnas eletrônicas e tal... quem será tem o sistema mais "maleável" (ou sacaneável...)
"Caucus"? Fala sério...
Bem, não interessa... mas que "nunca na história daquele país" haverá um presidente negro ou mulher está claro com água limpa... Só em hollywood há presidentes do EUA negros ou mulheres... e em filmes de ficção científica (beeeem ficção)... hahaha
Surpresa foi Hillary Clinton ficar em 3º (29%) logo atrás do John Edwards (30%)...
Mas Barack Obama favorito não me pareceu surpresa... já que enfrentando o candidato republicano Mike Huckabee (34% contra bem menos dos demais candidatos), Obama deve levar um nabo gigantesco da população branca, racista, conservadora e carola dos EUA como um todo...
Convenhamos que fica mais fácil para um ex-pastor batista contrário ao aborto, casamento gay e a favor da guerra contra o Iraque ganhar de um negro com nome de muçulmano.
Muito mais fácil do que concorrer com um John Edwards carismático, extrovertido, jovial... e branco-loirinho-de-olhos-azuis...
Talvez agora não precise ser tão escandaloso como em 2000 (Bush x Al Gore)... Pff!!!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Pois é...

Então...
Qualquer um tem blog... pq eu não teria também?
Tinha que começar com um nome diferente, já que como qualquer um pode ter um blog, todos os nomes legais que imaginei já foram usados... droga!
Nada melhor que apelar para coisas marcantes da infância/adolescência... afinal, quantos moleques de 12 anos liam Veríssimo nos anos 80? Poucos... E quantos achariam o conto estranho que inspirou o nome deste blog ultra-super-mega divertido, a ponto de lembrar dele até hoje? (ao invés de lembrar dos contos mais "normais" e bonitinhos do Veríssimo que as pessoas "normais" e bonitinhas lembram...?)
Bem... o blog está feito, e agora é só alimentá-lo...
Não sei se diariamente...
Não sei se com assuntos interessantes sempre...
Mas vamos lá! Não deve ser difícil!
(quando o conteúdo for mais polpudo, começo a divulgar... mas se de repente, mesmo assim vc achá-lo no google e se prestar a ler... obrigado pela força! e comente se for o caso!)

Sfotoim Poc

"Chamava-se Odacir e desde pequeno, desde que começara a falar, demonstrara uma estranha peculiaridade. Odacir falava como se escreve. Sua primeira palavra não foi apenas "Gugu".
Foi:
- Gu, hífen, gu...
Os pais se entreolharam, atônitos. O menino era um fenômeno. O pediatra não pôde explicar o que era aquilo. Apenas levantou uma dúvida.
- Não tenho certeza que "gugu" se escreve com hífen. Acho que é uma palavra só, como todas as expressões desse tipo. "Dadá", etc.
- Da, hífen, dá - disse o bebê, como que para liquidar com todas as dúvidas. Um dia, a mãe veio correndo. Ouvira, do berço, o Odacir chamando:
- Mama sfot poc.
E, quando ela chegou perto:
- Mama sfotoim poc.
Só depois de muito tempo os pais se deram conta. "Sfot Poc" era ponto de exclamação e "sfotoim poc", ponto de interrogação. Na escola, tentaram corrigir o menino.
- Odacir !
- Presente sfot poc.
- Vá para a sala da diretora!
- Mas o que foi que eu fiz sfotoim poc.
Com o tempo e as leituras, Odacir foi enriquecendo seu repertório de sons. Quando citava um trecho literário, começava e terminava a citaçao com "spt, spt". Eram as aspas. Aliás, não dizia nada sem antes prefaciar um "zit". Era o travessão. Foi para a sua primeira namorada que ele disse certa vez, maravilhado com a própria descoberta:
- Zit Marilda plic (vírgula) você já se deu conta que a gente sempre fala diálogo sfotoim poc.
- O quê?
- Zit nós sfot poc. Tudo que a gente diz é diálogo sfot poc.
- Olhe, Odacir. Você tem que parar de falar desse jeito. Eu gosto de você, mas o pessoal fala que você é meio biruta.
- Zit spt spt biruta spt spt sfotoim poc.
- Viu só? Você não pára de fazer esse ruídos. E ainda por cima, quando diz "sfotoim", cospe no meu olho.
O namoro acabou. Odacir aceitou o fato filosoficamente, aproveitando para citar o poeta.
- Zit spt spt. Que seja eterno enquanto dure poc poc poc spt spt.
Poc poc poc eram as reticências. Odacir era fascinado por palavras. Tornou-se o orador da turma e até hoje o seu discurso de formatura (em Letras) é lembrado na faculdade. Como os colegas conheciam os hábitos de Odacir mas os pais e os convidados não, cada novo som do Odacir era interpretado, aos cochichos, na platéia:
- Zit meus senhores e minhas senhoras poc poc.
- Poc, poc? - Dois pontos. - Que rapaz estranho...
- A senhora ainda não viu nada...
Quando lia um texto mais extenso, Odacir acompanhava a leitura com o corpo. As pessoas viam, literalmente, o Odacir mudar de parágrafo. - Mas ele parece que está diminuindo de tamanho! - Não, não. É que a cada novo parágrafo ele se abaixa um pouco. Quando chegava ao fim de uma folha, Odacir estava quase no chão. Levantava-se para começar a ler a folha seguinte. - Colegas sfot poc Mestres sfot poc Pais sfot poc. No limiar de uma era de grandes transformações sociais plic o que nós plic formando em Letras plic podemos oferecer ao mundo sfotoim poc. A grande realização de Odacir foi o trema. Para interpretar o trema, Odacir não queria usar poc, poc, que podia ser confundido com dois pontos. Poc plic era ponto e vírgula. Um spt só era apóstrofe. Como seria trema? Odacir inventou um estalo de língua, algo como tlc, tlc. Difícil de fazer e até perigoso. Ainda bem que tinha poucas oportunidades de usar o trema. Odacir, apesar de formado em Letras, acabou indo trabalhar no escritório de contabilidade do pai. Levava uma vida normal. Lia muito e sua conversa era entrecortada de spt, spts, citações dos seus autores favoritos. Mesmo assim casou - na cerimônia, quando Odacir disse "Aceito sfot poc", o padre foi visto discretamente enxugando um olho - e teve um filho. E qual não foi o seu horror ao ouvir o primeiro som produzido pelo recém-nascido:
- Zzzwwwwuauwwwuauzzz!
- Zit o que é isso sfotoim e sfot poc?
- Parece - disse a mulher, atônita - o som de uma guitarra elétrica.
O filho de Odacir, desde o berço, fazia a sua própria trilha sonora. Para a tristeza do pai, produzia até efeitos especiais, como câmara de eco. Cresceu sem dizer uma palavra. Até hoje anda por dentro de casa reverberando como um sintetizador eletrônico. É normal e feliz, mas o único som mais ou menos inteligível - pelo menos para seus pais - que faz é "tump tump", imitando o contrabaixo elétrico.
- Zit meu filho poc poc poc. Meu próprio filho poc poc poc. - diz Odacir. Poc, poc, poc."

(transcrição da crônica "Sfot Poc" do livro "O Analista de Bagé" de 1983, autoria de Luís Fernando Veríssimo, com todo respeito e admiração)