quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Diário da bota




Andando de bicicleta na ciclovia que liga o Jardim Botânico ao Parque da Cidade daqui de Jundiaí, domingo no final da manhã do dia 13 de novembro. Bike emprestada do meu filho, de melhor qualidade que a minha (mais leve e mais rápida) que estava recebendo uns acessórios na oficina e não tinha ficado pronta para o fim de semana. Empolgado com o lindo dia, a bike melhor, a sensação de ter 10 anos a menos e atrapalhado pela falta de concentração trazida pelo som alto do mp3 player, pela muvuca da pista – misturando pedestres e ciclistas na mesma trilha – e a momentânea falta de prudência e inteligência, não percebi a velocidade alta e a falta de aderência do pneu para asfalto no piso de saibro daquele trecho em curva da ciclovia... e levei um putza tombo.

Bem... sem problemas, já caí de moto algumas (poucas) vezes e estou acostumado com pele ralada. Levantei, conferi o estrago que não foi lá aquelas coisas, tentei pisar no chão e meu tornozelo esquerdo reclamou. Sentei na guia e um rapaz parou sua bike e ofereceu ajuda, água do seu squeeze p/ lavar os ralados... enquanto uma outra garota passou de bike e disse: “braço!” querendo dizer que eu era “braço-duro” ou seja, que não sabia andar de bike direito...
Assumi a crítica como verdadeira (embora tivesse vontade de descer o “braço” na filhadaputinha), aceitei a ajuda do rapaz, conferi a bike – tudo ok – e segui pedalando até o primeiro bebedouro p/ lavar os machucados, percorrendo todo o caminho na boa companhia e conversando com o rapaz (não sei o nome...), o que serviu para dissipar a tensão.
Me lavei (ardeu!), agradeci a solidariedade do rapaz mas dispensei-o da tarefa inglória de acompanhar um estropiado num domingo de sol. Estava sem muita grana, sem documento, sem celular e resolvi ir pedalando até minha casa. São uns 8 quilômetros...

Cheguei, conferi o estrago: escoriações profundas no joelho esquerdo e no cotovelo direito, mais leves no braço esquerdo, torso e costas (estava sem camisa... haha), além das palmas das mãos. O tornozelo esquerdo doía um pouco mas não me preocupei. Tomei banho (PQP! O ralado do torso foi o que mais doeu!) e deitei um pouco para pensar na vida...
Percebi uma dor estranha no meu tornozelo, um inchaço diferente das torções... e duas horas depois não aguentei e fui ao hospital. Diagnóstico: fratura da fíbula - aquele osso comprido e mais fino que liga o joelho ao lado externo do tornozelo - com edema ósseo. Levei uma bronca da médica por vir pedalando após o acidente, junto com a “recomendação” de não apoiar a tala (oba!) em nenhuma hipótise, pois se a fratura se desestabilizasse e desalinhasse, haveria a necessidade de cirurgia+placa+pino...
Ah, e perna para o alto o tempo todo!

Bem, pensei que saí no lucro, pois não teria que andar por aí com bota de gesso nem muletas nem nada nos dez dias em que ficaria afastado. Tranquilo, antes disso estaria zerado! Mas, descobri em pouquíssimo tempo que não é possível não apoiar um dos pés enquanto se anda sem muletas. E enquanto não tive muletas à minha disposição, ficar pulando como um saci machuca a perna boa e o quadril. E não dá para fazer nada direito. Com a muleta não mudou muito, pois é preciso apoiar cada uma das muletas com a mão e também sob o respectivo braço junto às costelas – estava com o torso direito e as mãos raladas... lembra? Que beleza! E para fazer qualquer coisa, ir ao banheiro, tomar água, mudar de posição no sofá... para tudo tinha que usar a maldita muleta! Imagine, justo eu que não gosto de pedir nada a ninguém...

Para dormir, um estorvo. Não havia lado para ficar confortável por causa das escoriações, e ainda era preciso ficar com a perna para o alto... uma ótima posição para ficar com insônia...
Uma semana de transtorno depois voltei ao médico, louco para tirar a tala do meu pé, mas ao ver meu tornozelo ainda inchado, tive um mau presságio, que se confirmou na forma de uma bota de gesso (aaahh!) e quarenta e cinco dias de afastamento. Ah, agora sim!

Pensei logo no diferencial para pior entre o desconforto já experimentado da tala e o futuro sombrio com aquela bota de cinco quilos de gesso presa ao meu pé. Na maluquice de ficar com aquela coisa por quarenta e cinco dias sem poder tirar. Sugeri ao médico um chique “robofoot”, aqueles aparelhos ortopédicos de plástico, tecido e velcro que dizem substituir o gesso. Mas o médico disse que não, que eu ia ficar tirando e recolocando... que o gesso era mais seguro e tal... é, o médico me conheceu bem em pouco tempo, pois se tivesse com o robofoot já teria tirado... já estou pensando em tirar o gesso com um martelo!
Tudo isso e mais um pequeno detalhe: ao ficar todo esse tempo afastado do trabalho, perderia minhas férias-prêmio (como funcionário público tenho direito a três meses de férias ou o equivalente em dinheiro a cada cinco anos trabalhados... desculpem...)

Escrevo isto no décimo dia após o acidente, terceiro dia de gesso, e embora as escoriações estejam quase curadas, a situação está complicada. Não tenho paciência de ficar em um mesmo lugar ou posição por mais de meia hora. Tenho sempre um monte de coisas bobas a fazer mas que dão um trabalho enorme em função da falta de mobilidade.

Parêntese importante: trabalho com projetos de construção civil e há tempos já não acho frescura se pensar em mobilidade para quem tem alguma deficiência física. Sempre imaginei que não era preciso ter alguma necessidade especial permanente para se ter dificuldade de locomoção frente a um mero degrau na calçada ou uma guia sem rebaixo. Bastava uma situação como a minha. E olha, quem tem deficiência física é herói!

Continuando a choradeira: Ao ficar dez minutos sem estar de perna para o alto, o pé dói bastante, inviabilizando qualquer passeio de muletas que dure mais que isso. Ou mesmo se ficar sentado com a perna em posição nivelada com o corpo a dor permanece.  Até pensei em voltar a trabalhar – não tanto porque sou exemplo de funcionário, mas para não perder minhas férias-prêmio... – mas é impossível nessa situação levantar e sentar na cadeira de minha mesa setecentas vezes por dia. 
Mesmo ao ficar com a perna para o alto, a posição de apoio tem de ser milimetricamente estudada para se tornar suportável. Mesma coisa acontece na cama. E olha que mudo de posição trocentas vezes durante o sono. Minha impaciência, definitivamente, não ajuda.

Passo os dias deitado ou sentado, com tempo para dormir, cochilar, ler todos os meus livros e revistas que estavam encostados por falta de tempo, confirmar que a tv aberta é uma porcaria, ficar navegando na net... e contando as horas para o retorno ao médico e enfim tirar esse troço do meu pé... se é que ele vai estar ali ainda (o gesso... não o pé).

 Coisas interessante que notei na situação de estropiado:

- A solidariedade da maioria. Tanto o rapaz sem nome que me acompanhou desde o tombo, passando pelos amigos, chefes, companheiros de trabalho e parentes que se colocaram a disposição para ajudar e torcem para meu pronto restabelecimento, não me esquecendo claro, da garotinha de uns quatro aninhos que passou por mim e falou para sua mãe: “coitado do moço, mãe... machucou a perna!”  Linda! Me chamou de moço!

- A babaquice de alguns. Tanto a idiotinha que achou mais legal tirar um sarrinho da minha cara de trouxa recém-caido do que ficar quietinha e se refastelar na sua própria baixeza pseudo-humanóide, quanto de uma pessoa que foi preterida da minha agradável companhia no fatídico dia e tascou um “Bem feito!” ao saber do acidente, como forma de vingança e graças aos céus pelo castigo que não veio a cavalo, mas de bicicleta. 
E também para outro que, magoado com uma brincadeira que que fiz – e que ele julgou de mau gosto (eu achei engraçadíssima, e a idéia original nem foi minha) – se regozija através do meu “sofrimento”, também imaginando que o tombo serviu como instrumento de vingança tardia ou que servirá como lição de vida para que eu não mais repita brincadeiras de “mau-gosto”, ou ainda para que esse meu “infortúnio” me torne uma “pessoa melhor”.

Tenho a dizer que essa idéia de que uma doença ou um acidente que alguém sofre não acontecem em função de seu bom ou mau comportamento.
Não acredito em um deus vingativo, barbudo com cara de mau, flutuando nas nuvens, pronto para mandar um raio em forma de castigo na cabeça de seus filhos. Ainda mais se esse castigo for desejado e endereçado através de uma prece enviada por um “irmão”.

Os que sofrem merecem ser confortados, independente de se gostar deles ou não. No mínimo merecem a paz de não ouvir asneiras ou ver comportamentos infantilóides de escárnio. Aí está a humanidade que falta a essas pessoas. É isso que nos faz diferentes dos animais.

Esse comportamento, em humanos em geral e particularmente em pessoas que julgava “amigas” só merece desprezo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Nina x andorinha




Dois gatos habitam minha casa. Ou melhor: um gato e uma gata. Um gato branco de dez anos chamado Mingau e uma gata preta de dois anos chamada Nina. O Mingau já está velho e ranzinza, mas a Nina está em plena adolescência. Ela sempre foi mais arisca e mais rústica que o fresco do Mingau. E também uma excelente caçadora.
Nada que se mexa escapa da sua curiosidade e das suas garras, pode ser um inseto da grama do jardim (mariposas, borboletas, gafanhotos, besouros, baratas, formigas), ou sapos, lagartixas... e passarinhos.
Numa manhã de sexta-feira, como ela faz diariamente, a Nina miou debaixo da minha janela para que eu a deixasse entrar pelo parapeito num salto ágil. Só que ele não entrou dessa vez, sua atenção foi desviada para o barulho de umas andorinhas sobrevoando o quintal da casa.
A casa onde moro foi projetada também para abrigar meus gatos, com passagens livres entre os quintais, muros e portões altos para que não houvesse perigo de que eles escapassem para as casas vizinhas e corressem o risco de se transformar em alvos de vizinhos ignorantes ou cachorros idem.
Percebi que a Nina não entrou, percebi o barulho das andorinhas e logo ouvi um pio de desespero de uma delas. Olhei pela janela e a Nina já estava com uma delas entre suas pequenas mandíbulas. Ainda viva mas paralisada pelo terror.
Fiquei observando e notei que a gata permaneceu um tempo com sua presa na boca, estática, provavelmente para sufocar a pequena vítima com o encaixe providencial que tem entre os dentes das mandíbulas superior e inferior, talhados à perfeição por milhares de anos de evolução especificamente para interromper o fluxo de oxigênio enviado pelos vasos sanguíneos através do pescoço para o cérebro da pequena ave.
Mas, antes de a andorinha finalmente morrer, a gata soltou-a e se estendeu e se esticou de costas no chão – como ela faz quando se espreguiça sob o sol da manhã – e dava pequenos piparotes no pequeno corpo inerte da ave... demonstrava grande prazer, estava se vangloriando de quão grande caçadora era e desfrutava da glória de ter subjugado a presa...
Como a pequena ave não estava morta ainda, guardava alguma força e tinha espasmos na tentativa tardia de escapar. Mas a Nina ficava na espreita e dava pequenos golpes com as garras, às vezes jogando a andorinha para o alto como uma peteca. 
Não vi crueldade nisso, como se a gata estivesse “brincando” com a futura refeição, mas talvez ela quisesse dar uma última chance de sobrevivência para a andorinha ao mesmo tempo que demonstrava sua supremacia, um lampejo de piedade misturado com um tanto de sarcasmo... sei lá...
Mas aí lembrei de que já havia visto pequenos restos de andorinha sob a grama do quintal. As andorinhas são muito mais ágeis e espertas que pardais, seu voo é muito rápido e preciso. Como a Nina ainda não aprendeu a voar (se bem que o crescimento de asas em gatos talvez pudesse ser um efeito colateral dos cereais transgênicos indicados no grande T amarelo estampado na embalagem da ração, mas acho que não... ainda) e não há como ela pular ou escalar os muros devido a altura, só posso imaginar que a andorinha pousou no quintal de uma casa onde moram dois gatos. Burrice? Imprudência? Ou talvez ela tenha percebido o Mingau em sua letargia da terceira idade felina e foi fazer uma provocação ao gato branco lerdo que –“não consegue me pegar-ar hahahaha” e vupt, foi abocanhada pela gata preta que não tinha visto. Hahaha!

PS: Citei a ração que é da melhor qualidade, é servida em quantidade mais que suficiente, e aos domingos ambos ganham pacotinhos de ração úmida que eles adoram... A andorinha ficou estendida sobre a grama por dois dias até que resolvi dar um destino digno ao pequenino cadáver. A Nina não comeu.

sábado, 5 de novembro de 2011

USP e Maconha



O que eu mais acho incrível de acontecer é que, na discussão de qualquer assunto, quando se ouve falar em “maconha”, perde-se toda a legitimidade como que por mágica.
Sabe aqueles filmes americanos de tribunal, onde os advogados “do mal” desqualificam uma testemunha ocular de um crime horrível dizendo que ela é... homossexual, por exemplo? 
- "Mas ela estava presente no local do crime... é testemunha ocular...”
- "Mas como se pode acreditar na palavra de um pervertido?”
E lá se foi a legitimidade da testemunha...
(Espero que você entenda que o fato de essa testemunha fictícia ser ou não homossexual não modifica o fato de ela ter visto o crime, certo? Senão meu caro, pode parar de ler por aqui para não perder seu tempo... e aproveite e dê uma apertadinha no seu cilício...)
Poderia ter apostado os olhos da cara que depois do convênio com a PM firmado imediatamente após o assassinato do estudante da FEA, mais dia menos dia esse rolo todo iria acontecer.
Vamos começar do começo, depois continuar, e quando chegar no fim eu paro...
Primeiro a lei, ora a lei...
Lei 11.343,  art. 28. - Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.”.
Pode ser que você conheça muito pouco das ruas, fora as do seu seguro e confortável  bairro. Mas vou contar algo para você que será uma surpresa: em nenhum lugar do país alguém vai preso por portar ou fumar maconha. Pare de bradar bobagens pedindo borrachada e cadeia para os maconheiros porque a lei do país onde você vive não permite isso. Você já imaginou o que aconteceria se todos os maconheiros fossem presos?
É de uso corrente pelos PMs a chamada “dura” quando se flagra nas ruas algum maconheiro fumando, que nada mais é do que um esporro bem dado, alguns chutes na bunda, às vezes uns tapas na cara, apreende-se a droga e pronto. Libera-se o “meliante”. Sem prisão.
Senão, você há de convir, que teríamos que construir centenas de prisões e enfiar os perigosos maconheiros lá dentro para livrar a sociedade e o estado democrático de direito desse perigo iminente.
Portanto, saudosos da ditadura, não mais se aplica a pena de prisão para o porte ou consumo de maconha no nosso país, certo?
Aliás, no país onde vivo, a dura lex sed lex não funciona, quer seja para políticos corruptos de todos os partidos (e para gente rica que pode comprar os melhores advogados e juízes) e nem mesmo para as pessoas comuns.
Sabe o motivo?
Porque a lei tem que ser aplicada na vida real por agentes.
E esses agentes acabam decidindo a aplicação da lei caso a caso.
É o correto? É o ético ou o moral? Não sei, mas é assim.
Funciona desta maneira quando nós, os não-maconheiros, somos flagrados no carro sem cinto, falando ao celular, estacionando na vaga de deficiente físico… apelamos para a “insignificância” da coisa e pedimos um “quebra galho” que muitas vezes funciona.
Ou não.
Quem decide a aplicação ou não da lei é o agente. Baseado na sua análise momentânea da conjuntura do ato infracional, que inclui sim a gravidade do caso, mas também a "dura" que se toma de um delegado da polícia civil entulhado de coisas importantes a fazer quando se leva um moleque portando um baseado para que sejam aplicadas “sanções penais não privativas ou restritivas da liberdade”...
Pergunte isso a qualquer PM que você conheça.
Observe: Não estou relativizando o crime. Só estou tentando chamar a atenção para um legalismo bobo e infantil que não se aplica na nossa vidinha cotidiana.
Isto posto, vem a pergunta: Se não é usual “levar p/ cima” um maconheiro quando se tem coisa mais importante a fazer, qual o motivo que levou os PMs do campus da USP a fazer exatamente o contrário?
Pensemos: se isso não acontece em nenhum lugar do país, porque aquele escândalo todo na USP?
O fato de os estudantes estarem cometendo um crime dentro da USP foi tratado pelos PMs de maneira diversa de como seria tratada em qualquer lugar fora da USP porque...vamos fazer um joguinho de sim e não:
É crime fumar maconha em qualquer lugar do país? Sim.
Em qualquer outro lugar ninguém mais vai preso por esse crime? Sim.
Os estudantes iriam presos fosse outra a situação? Não.
Ora, ora... Isso não é perverter o debate…
É simplesmente o âmago da questão toda!
Aparentemente por pura má vontade ninguém quer perceber que, neste caso, se aplicou a velha máxima “aos amigos tudo, aos inimigos: a lei”…

Os policiais resolveram levar os perigosos maconheiros à delegacia fazer um inócuo termo circunstanciado que não vai interferir na ficha criminal do “meliante”, não vai ser investigado e nem vai gerar punição nenhuma a ninguém porque foram afrontados.

Porque outros alunos centrados, um ou outro professor consciente e a diretora da FFLCH estavam próximos de um acordo que talvez até incluísse o acompanhamento dos alunos “criminosos” até a delegacia… mas foram interrompidos por uma massa de manobra do radicalismo político que impera em alguns setores da FFLCH com a única intenção de criar um factóide. 
E conseguiram!
Mas isso já é um outro assunto...

Tomo agora a liberdade de reproduzir aqui, com todo o respeito e admiração, um post de autoria de um estudante da FFLCH/USP chamado Leandro, que conseguiu sintetizar perfeitamente tudo o que penso a respeito dos assuntos correlatos a essa situação.
Dá um puta orgulho saber que os estudantes da FFLCH, tachados de maconheiros, burguesinhos e rebeldes sem causa pelos "indignaldos" de plantão, são na sua grande maioria pessoas de grandeza intelectual e real capacidade de argumentação, que é justamente o que está faltando na nossa sociedade hipócrita e ignorante.
O link para o saudável debate em que está o post original:


“Car@s,
Honestamente o que mais me assusta são as posições do tipo “democracia é obedecer às leis”. Quer dizer que numa sociedade democrática não existe espaço para contestação às leis? Quem não concorda tem que levar borrachada? Como o brasileiro está despreparado para a democracia! São os mesmos que acham que na ditadura o Brasil funcionava melhor…
Muita gente também se esconde atrás do argumento de que os maconheiros são filhinhos de papai que estudam às custas do dinheiro público. Em parte isso é bem verdade. Mas não vamos exagerar. Eu estudo na FFLCH e não sou filhinho de papai. Trabalho desde os 14 anos e nunca estudei em escola particular. Como eu há muitos, talvez não a maioria, mas muitos. Desse argumento dos “filhinhos de papai” nasce o outro, ainda mais infantil, de que o consumo é que produz o tráfico. Amigos, o consumo existe muito, muito antes do tráfico. E continuará a existir se um dia o tráfico acabar. O que financia o tráfico é a proibição. Pensem um pouco, estudem! Quando os EUA proibiram o álcool, nasceu Al Capone. Exemplo besta, mas típico e definitivo. Eu estava na USP e vi como tudo aconteceu. O maior problema é falta de diálogo e de transigência. Os policiais podiam muito bem resolver a questão sem encaminhar os estudantes flagrados à delegacia. O desgaste político seria muito menor. Mobilizaram 20 viaturas, 50 policiais, por cinco horas, para lavrar 3 termos circunstanciados, cuja assinatura ainda poderia ser negada pelos autuados sem maiores complicações para eles. Me parece que os esforços da PM na USP estão bem mal direcionados, vcs não acham? Durante cinco horas todo o resto do campus ficou livre para ação de quaisquer outros delitos. Da parte dos estudantes, também falta um pouco mais de clareza. Óbvio que a PM não tem o mesmo papel da ditadura. E que desejar a sua saída definitiva do campus é uma utopia e uma idiotice. É abrir caminho para estupros e assaltos à vontade. A violência é uma realidade lá dentro. O problema é que ambos os lados – governo e estudantes de esquerda – usam a presença da PM na USP politicamente, em vez de usar legitimamente e para os fins realmente necessários. Combater a violência na USP não é enquadrar estudantes que fumam. A PM sabe muito bem de onde vem a droga, ou não sabe? E o governo usa a PM para fazer propaganda, ao invés de implantar um esquema verdadeiro de prevenção à violência. De outro lado, partidos e sindicatos também usam a presença da PM politicamente, para enfraquecer o governo. E quem paga é a sociedade, de dentro e de fora de USP, que permanece desprotegida e mal-informada.
“Uma estudante da USP” Leia meu comentário, acima do seu. Nem todos os estudantes da USP são maconheiros. Nem todos são contra a PM. Nem todos são filhinhos de papai. Mas cabe a nós, já que estamos lá dentro, tratar a questão com um pouco mais de seriedade, colega. Não se trata apenas de defender a libertinagem, o direito de fumar sem ser incomodado. Não seja tão ingênua. A PM é usada politicamente, por ambos os lados, governo e militancia da oposição. Nosso reitor fechou a porta para o diálogo faz tempo. E uma sociedade democrática é uma sociedade onde o conflito está presente, lhe e inerente. Democracia não é apenas obediência à lei, como alguns acreditam. É diálogo constante, respeito pela diversidade e, de preferência, convivência não violenta de pessoas cujas opiniões são divergentes. E enquadrar estudantes não é a melhor forma de combater a violência. Você não se sente ameaçada ao andar de uma aula para outra por estudantes, eu garanto. A PM sabe onde está o problema, mas finge que não vê, e propagandeia uma segurança que ela não garante. Quando nosso colega da FEA foi assassinado, a PM estava no campus. Acorde, colega!"

É isso!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O regozijo do câncer alheio

Olha que bonito: os inconformados das redes sociais agora elegeram o câncer do Lula como  uma vendeta pessoal, a sensação de "bem-feito! deus afinal existe!" Um sentimento de aparente felicidade e secreto prazer, precisamente traduzido pela palavra alemã "Schadenfreude " (coisa que só um alemão conseguiria fazer direito...)

Está em voga também a modinha de impor o martírio do tratamento de um câncer pela saúde pública a um ex-presidente da república como maneira de punição pelo "abandono" imposto pelo seu governo aos cidadãos que dependem somente do SUS, Como se esse comportamento suicida fosse capaz de redimir os "malfeitos" de sua época como governante.

Uma mistura de desumanidade no primeiro caso e de cegueira simplória no segundo.

Quer dizer que deus usa o câncer como punição à sua criação? Ou o câncer é uma provação imposta pela "vida" aos maus atos de uma existência? Ou as pessoas inconscientemente são capazes de gerar em seu próprio corpo uma doença mortal diretamente relacionada com os pensamentos ruins, mágoas ou carmas negativos?

Pergunto: isso funciona só para o câncer dos outros, mais exatamente a quem você odeia? Ou funcionaria também para um câncer seu, ou para um câncer de alguém a quem você ama?

Como ninguém é uma unanimidade, tenho consciência da possibilidade de alguém não ter gostado de meu pai. E teria o mais profundo desprezo por quem pensasse que ele mereceu passar seus últimos 10 anos de vida percebendo lucidamente sua decadência física em função do mal de parkinson. Pode ser que alguém não gostasse de minha mãe. E teria asco de quem pensasse que ela mereceu a morte súbita que teve quando seu coração explodiu devido a um tamponamento cardíaco.

Não sou uma espécie de ser humano elevado, mas meu sentimento seria só de asco e só de desprezo. Jamais desejaria que a mãe de tal pessoa tivesse câncer no útero nem câncer no pulmão para que essa mesma pessoa sentisse na própria pele o que deseja para os outros e "aprendesse" a ser uma pessoa "melhor" com este infortúnio.

Como é possível debater tal insensibilidade, um radicalismo tão infantilóide, uma falta total e absoluta de humanidade e do mais básico sentimento de solidariedade?
Não é. Pelo menos para quem acredita, como eu, que a humanidade é naturalmente composta de pessoas melhores e pessoas piores.

E vou além: ambas "categorias" estão sujeitas às mesmas desgraças impostas ora pelo próprio meio de vida e ora pelo mais puro acaso.

Exigir que uma pessoa que tem à sua disposição meios para dispor de um tratamento de saúde da melhor qualidade capaz de salvar sua vida - seja por que motivo for: direito, fama, grana - abra mão desta possibilidade para atender à sede de vingança, inveja e frustração de quem cobra tal atitude é de uma inferioridade moral e ética de profundidade abissal, já que escancarada a mesquinhez da exigência, essa recíproca nunca seria verdadeira.

Ou seja: se existisse a possibilidade, quem cobra essa atitude - devido à sua mesquinhez inata - não seria capaz de demonstrar a grandeza de materializar o ato que cobra dos outros.