quinta-feira, 25 de dezembro de 2014



Prática

(nunca havia lido algo que, misteriosamente, aconteceu comigo quase que ipsis litteris. é um trecho de um livro que li há pouco.
o contexto: ele, o nadador, visita um templo budista pela primeira vez num domingo de prática de meditação em busca de esclarecimentos. É levado ao templo por Leopoldo, um amigo comum dele e de Bonobo. Este último foi quem introduziu a ideia do budismo na cabeça do narrador. Trechos desnecessários - ao meu ver, para este fim - foram aqui suprimidos em relação ao original impresso)  

"...
... ele fica pensando no que exatamente veio perguntar e como deve fazer isso sem soar ignorante ou desrespeitoso...
...
(sobre a Lama): ... seus olhos claros e de cílios quase transparentes derramam serenidade de espírito e sua constituição física sugere adesão a alguma modalidade radical de vegetarianismo. Sua voz é ao mesmo tempo suave e ressonante. Por trás da economia de palavras parece haver uma reverência deliberada ao silêncio. Não parece feliz e muito menos infeliz.
...
Vinha se sentindo atraído por uma série de ideias e conceitos budistas explicados com paciência pelo Bonobo: a impermanência de todas as coisas, a ilusão da individualidade, a visão de uma pessoa como nada além de uma configuração fugaz dos componentes  instáveis do corpo e da mente, a necessidade de combater a impressão errônea de que somos inteiros, permanentes, duráveis, autônomos e desconectados do fluxo de todas as coisas para conseguir interagir com o mundo de maneira mais espontânea, compassiva e desapegada, para conseguir sofrer menos e fazer sofrer menos. Muitas dessas ideias que lhe eram nomeadas pela primeira vez correspondiam às suas próprias intuições e convicções, mas nada podia ser mais diferente do caminho que o trouxera até elas do que essas leituras repetitivas e meditações em grupo... Entende que o que essas pessoas buscam é o que ele busca e o que todos buscam, mas seus métodos são diferentes e talvez, suspeita agora, inconciliáveis.
...
Quando a prática termina ele fica esperando a Lama terminar de conversar com a guria de cabelos curtos sobre os enfeites que serão confeccionados para vender no templo até obter a chance de abordá-la e fazer a pergunta que o trouxe ali em primeiro lugar. Quer saber como os budistas podem falar em reencarnação se toda sua filosofia promove o desapego a qualquer noção de um ego que persista no tempo. Porque para um ser reencarnar, perdão, renascer, algo do que ele era deve ressurgur mais adiante ou então nem faz sentido usar o termo. O Bonobo tinha dito que não era bem assim, que o que renasce não são seres e sim estados mentais, e na verdade a coisa fica bem complicada de explicar a partir daí, mas ele não vê diferença nenhuma entre um espírito reencarnado e um estado mental ressurgido lá na frente e sendo atribuído a alguém que morreu como se algo da pessoa ainda existisse. Não consegue encontrar as palavras que procura e sabe que sua pergunta está gravitando cada vez mais perto da incoerência total, mas Lama Palden escuta com toda a atenção até que ele canse de falar. Depois ela se limita a dizer que apenas a meditação pode conduzir à certeza racional da existência do carma e do renascimento. O caminho para a iluminação é um treinamento da mente, análogo ao treinamento do corpo, Só a prática revela os ensinamentos, ela diz. As verdades não podem ser entendidas pela ótica racional e dualista do ocidente. Ela também ressalta que a iluminação elimina o ciclo de renascimentos e pergunta se ele queria saber mais alguma coisa. Ele fica olhando para ela como se estivesse assimilando tudo isso, agradece repetidas vezes e se despede. Ela diz para ele não deixar de vir nas próximas práticas, é todo domingo às nove.

Os três passam a tarde bebendo e comendo numa das quatro mesinhas do Café do Bonobo . Leopoldo é grandalhão mas fica bêbado rápido e começa a debochar do desempenho do novato em sua primeira prática. O Bonobo escuta tudo balançando a cabeça e depois o repreende.
- Tu é uma peça, hein nadador. Já chegou matando em cima da Lama com essa história de renascimento?
- Era uma dúvida que eu tinha, ué.
 - O que ela disse?
- Pra eu meditar até entender.
Leopoldo dá uma risada.
- Eu te disse, Bonobo, o ideal é nem começar.
- Velho, tu ta obcecado com essa história de renascimento. Vira o disco. Por que é tão importante pra ti saber se existe renascimento?
- É importante saber que não existe. Todo o resto parece certo pra mim, mas esse detalhe estraga tudo.
- Escuta, nadador. A questão do renasicmento nem é muito importante no budismo original. Rolavam altas macumbas no Tibete quando o budismo caiu lá de paraquedas e uma parte da doideira ficou. Mas não é como a reencarnação kardecista. Se tu entende que uma pessoa é só uma aglomeração dinâmica de estados mentais, a ideia de uma alma que pode reencarnar deixa de fazer sentido. O que renasce, arredondando de um jeito grosseiro para tu entender, são esses estados mentais, que seguem em frente e se recombinam até certo ponto. Assim como teu corpo alimenta plantas e vermes se tu for enterrado no chão. Assim como os átomos do teu corpo são poeira das estrelas.
- Os átomos do meu corpo podem ser poeira das estrelas, mas isso não quer dizer que há estrelas em mim.
- Parem de falar como hippies.
- Entendeu o que quero dizer, Bonobo? A estrela morreu, eu vou morrer. Não faz diferença. Os átomos não eram dela. Meus estados mentais não são meus. E que porra é essa de mente? Acho que é só um jeito espertinho de acreditar em alma. É o restinho de permanência que os budistas guardam embaixo da cama.
- Criamos um monstro, Leopoldo.
- Eu avisei antes. O ideal é nem começar.
- A vida não pode continuar depois da morte. Não pode. Seria ridículo. Se provarem que continua eu me mato.
- Mas aí não ia adiantar.
- Tu é uma peça mesmo. O desgraçado mais cético que eu já vi.
- Não sou cético. Só não acredito em qualquer coisa.
- Se deus existisse ele ia se divertir contigo.
Leopoldo ergue a garrafa de vidro e soluça.
- Um brinde à crença apaixonada de que nada disso aí existe.
Ele e Bonobo também erguem suas garrafas. Os três gargalos se chocam juntos e a garrafa dele se espatifa fazendo voar cerveja e vidro para todo lado. Os três se entreolham com os braços ainda esticados e os ombros encolhidos, imóveis, assimilando aos poucos o que acaba de acontecer. A garrafa se desfez no ar instantaneamente mas a sensação de segurá-la só vai desaparecendo aos poucos."



(Trecho do livro “Barba ensopada de sangue” de Daniel Galera, transcrito com todo respeito e admiração)

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