Dia 00.
Madrugada de domingo, 30 de agosto de 2015:
O sono leve de sempre, intensificado pela necessidade dos gatos em entrar e sair, sabendo que um miado ou um arranhar na porta é suficiente para me fazer levantar. Mas dessa vez acordei sentindo um repuxar no braço direito e um movimento espasmódico irregular em frequência e intensidade no indicador. Fiquei observando por um longo tempo imaginando o que estaria acontecendo. Claro, a imagem dos primeiros sintomas do Mal de Parkinson em meu pai me vieram a mente. Comecei a depurar os sintomas e vieram lembranças recentes de fraqueza progressiva nos braços, vagarosidade ao urinar, com resíduo miccional, engasgos frequentes com água e até saliva.
Bem, meu braço direito está machucado pela queda de patins em dezembro passado, com rompimento parcial de um dos tendões do manguito rotador que junto com a capsulite adesiva faz parecer óbvio a perda de massa muscular e força no braço todo, o que talvez explique o caso.
Não demorei muito tempo para ser vencido pelo cansaço e dormir.
Dia 01.
Segunda-feira 31 de agosto de 2015:
Trabalho no escritório com o mouse na mão esquerda em função dos sucessivos problemas de epicondilite, inflamação e bursite decorrentes do LER de 20 anos desenhando no computador com a mão direita. Mas fiquei observando meu dedo indicador da mão direita tremelicar a manhã toda e marco clínico para a quarta feira. Neurologista para dia 09, aniversário de nascimento de minha mãe. O que isso quer dizer?
Dia 02.
Terça-feira 01 de setembro de 2015:
Troca de seção na prefeitura, não tive tempo nem vontade de notar nada muito diferente do que já estava acontecendo. Decidi não pensar no assunto.
Dia 03.
Quarta-feira 02 de setembro de 2015:
Parou. Nenhum movimento espasmódico no dedo, só uma sensação de fraqueza em ambos braços. Vou ao médico - Dr. Marcelo, muito atencioso - e relato todo o problema cuidadosamente. Ele me encaminha ao neurologista mas tenta me tirar da cabeça o pavor pelo Parkinson dizendo que os sintomas relatados se associam a uma série de outros quadros bem mais simples. Me pede exames de sangue e um retorno o mais breve possível com os resultados combinando um check-up. Marco o neurologista em data mais próxima. Dr. Wolf, Cuidou - mal - do Parkinson de meu pai. Cuidou - bem - da epilepsia do Guilherme. Vai cuidar de mim?
Dia 04.
Madrugada de quinta-feira 03 de setembro de 2015:
Fui dormir ainda com a sensação de fraqueza, acordei algum tempo depois com o polegar da mão esquerda se contraindo. Fiquei observando e fiquei em dúvida se o movimento era mesmo "em pinça" com o indicador mas não consegui definir. Acho que não. Demorei horrores para dormir. Aliás, pensando bem, há tempos que tenho problema com sono. Também em função dos gatos, também em função do divórcio, por causa de Rose, por causa do Guilherme, por causa da Lili, por causa do apartamento, troca de seção e brigas internas na prefeitura, saco cheio profissional e pessoal... muita coisa na cabeça. Burn-out? Stress? Talvez uma explicação. O restante do dia percebendo o leve tremelicar do polegar, parado, dirigindo, trabalhando.
Dia 05.
Madrugada de sexta-feira 04 de setembro de 2015:
Vou dormir já pensando nos 10 anos seguintes e como acabar com tudo isso de maneira rápida e indolor. Insônia. Pego o celular e pesquiso sobre diagnóstico, sintomas e tratamento do Parkinson.
Descubro que tenho muitos dos sintomas, coisa de hipocondríaco. Tento de tudo para dormir, internet, leitura, livro, revista, leite quente. Consigo dormir umas 04:30h e acordo às 7h.
Chego no escritório e pesquiso Drauzio, Associações Parkinson, Michael J Fox. Evito vídeos. Lembranças trágicas de meu pai não permitem ainda. Na prefeitura o ritmo da seção nova não permite maiores divagações e passo reto sobre a imprecisão no uso do mouse pelo tremelicar do dedo.No final do expediente saio para beber com Lili. Começo a perceber um mal estar generalizado, uma fraqueza nas pernas também, um nó na garganta. Nada transparece. Encontro o Sr. Sakae que me faz uma massagem no ombro machucado em plena Feira Oriental do Maxi Shopping que me anima um pouco, Melhoras no ombro, uhu. Bebemos e com a bebida isso tudo melhora. Mais à noite durmo um pouco melhor.
Dia 06.
Madrugada de sábado 05 de setembro de 2015:
Durmo um pouco melhor mas acordo cedíssimo. Rolando na cama percebendo - e talvez desenvolvendo por somatização - todos os sintomas.
Me levanto, faço o que tenho de fazer na kit e saio para SP com a Lili. Espasmo, mal estar, disfarce e dá tudo certo. No final da noite antes de voltar para casa passo no pronto-socorro. Aguardo e uma médica muito nova e muito bonitinha - Dra. Adriana - me atende com a cara de saco-cheio de plantão de sábado. Relato cuidadosamente minhas preocupações, e ela até que atenciosamente mede minha pressão - 13/9 - e me examina. Me declara ok (pressão, coração, temperatura, equilíbrio, ambulação, força nos dedos e na mão e nos braços) e se declara impotente para diagnosticar problemas neurológicos mais sérios em um plantão de pronto socorro. Me diz para não deixar de me consultar com o neurologista. Novamente me diz que os sintomas são inconclusivos e não são exclusivos do Parkinson. Agradeço (de verdade) e saio menos paranoico. Tento deitar tarde para conseguir dormir decentemente. Vontade de entrar na deep web para conseguir Fenobarbital mexicano por via das dúvidas.
Dia 07
Domingo, 06 de setembro de 2015
Dormi bem, acordei com mal estar generalizado e fiquei na cama um bom tempo. Uma dor difusa ao longo dos nervos dos braços e das pernas. De vez em quando sinto como se estivesse envolto em uma aura de estranhamento. Melhoro com o passar do tempo. Saio, bebo cerveja, passeio, sento sobre as mãos quando sinto que vão começar a tremer. Almoço e a coisa parece melhorar. Passo o resto do dia bem, na companhia de Lili e sinto que tudo vai melhorando aos poucos. Vou dormir um pouco mais tranquilo.
Dia 08
Segunda-feira, 07 de setembro de 2015
Durmo bem, acordo bem. Sinto que os dedos não tremem mais, embora ainda sinta que os nervos ao longo dos braços e das pernas estão sensíveis e o sentimento de fraqueza permanece. Leio a bula do Artrolive receitado pelo ortopedista e não encontro nada demais. Levanto e vou cuidar da vida. Melhoro! O mal estar não está mais presente, o enjoo passa e a insegurança também. Passo bem o dia todo e tenho mais segurança em pensar nas coisas com mais clareza. Preciso ligar para meus seguros, fazer o testamento, passar no laboratório pegar meus exames para a consulta ao clínico e esperar com mais calma a consulta com o neurologista. Vou me programar para continuar com as noites de exercício no Bolão com Lili e talvez passar no Centro de Santa Gertrudes para tomar um passe. O desespero é a chave para a conversão a uma religião? Sim, claro. Mas não comigo... farei um teste prático com a capacidade mediúnica do povo lá, vamos ver.
Observação importante: Publico em 2020 esse post afim de preservar a estória (e manter o blog vivo?), que felizmente, parece ter terminado com um final feliz por enquanto (não sem antes ter beirado o desespero total por motivos outros que não a suspeita de parkinson... mas isso é outra estória)
1946
Há 13 anos

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