quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Diário da bota




Andando de bicicleta na ciclovia que liga o Jardim Botânico ao Parque da Cidade daqui de Jundiaí, domingo no final da manhã do dia 13 de novembro. Bike emprestada do meu filho, de melhor qualidade que a minha (mais leve e mais rápida) que estava recebendo uns acessórios na oficina e não tinha ficado pronta para o fim de semana. Empolgado com o lindo dia, a bike melhor, a sensação de ter 10 anos a menos e atrapalhado pela falta de concentração trazida pelo som alto do mp3 player, pela muvuca da pista – misturando pedestres e ciclistas na mesma trilha – e a momentânea falta de prudência e inteligência, não percebi a velocidade alta e a falta de aderência do pneu para asfalto no piso de saibro daquele trecho em curva da ciclovia... e levei um putza tombo.

Bem... sem problemas, já caí de moto algumas (poucas) vezes e estou acostumado com pele ralada. Levantei, conferi o estrago que não foi lá aquelas coisas, tentei pisar no chão e meu tornozelo esquerdo reclamou. Sentei na guia e um rapaz parou sua bike e ofereceu ajuda, água do seu squeeze p/ lavar os ralados... enquanto uma outra garota passou de bike e disse: “braço!” querendo dizer que eu era “braço-duro” ou seja, que não sabia andar de bike direito...
Assumi a crítica como verdadeira (embora tivesse vontade de descer o “braço” na filhadaputinha), aceitei a ajuda do rapaz, conferi a bike – tudo ok – e segui pedalando até o primeiro bebedouro p/ lavar os machucados, percorrendo todo o caminho na boa companhia e conversando com o rapaz (não sei o nome...), o que serviu para dissipar a tensão.
Me lavei (ardeu!), agradeci a solidariedade do rapaz mas dispensei-o da tarefa inglória de acompanhar um estropiado num domingo de sol. Estava sem muita grana, sem documento, sem celular e resolvi ir pedalando até minha casa. São uns 8 quilômetros...

Cheguei, conferi o estrago: escoriações profundas no joelho esquerdo e no cotovelo direito, mais leves no braço esquerdo, torso e costas (estava sem camisa... haha), além das palmas das mãos. O tornozelo esquerdo doía um pouco mas não me preocupei. Tomei banho (PQP! O ralado do torso foi o que mais doeu!) e deitei um pouco para pensar na vida...
Percebi uma dor estranha no meu tornozelo, um inchaço diferente das torções... e duas horas depois não aguentei e fui ao hospital. Diagnóstico: fratura da fíbula - aquele osso comprido e mais fino que liga o joelho ao lado externo do tornozelo - com edema ósseo. Levei uma bronca da médica por vir pedalando após o acidente, junto com a “recomendação” de não apoiar a tala (oba!) em nenhuma hipótise, pois se a fratura se desestabilizasse e desalinhasse, haveria a necessidade de cirurgia+placa+pino...
Ah, e perna para o alto o tempo todo!

Bem, pensei que saí no lucro, pois não teria que andar por aí com bota de gesso nem muletas nem nada nos dez dias em que ficaria afastado. Tranquilo, antes disso estaria zerado! Mas, descobri em pouquíssimo tempo que não é possível não apoiar um dos pés enquanto se anda sem muletas. E enquanto não tive muletas à minha disposição, ficar pulando como um saci machuca a perna boa e o quadril. E não dá para fazer nada direito. Com a muleta não mudou muito, pois é preciso apoiar cada uma das muletas com a mão e também sob o respectivo braço junto às costelas – estava com o torso direito e as mãos raladas... lembra? Que beleza! E para fazer qualquer coisa, ir ao banheiro, tomar água, mudar de posição no sofá... para tudo tinha que usar a maldita muleta! Imagine, justo eu que não gosto de pedir nada a ninguém...

Para dormir, um estorvo. Não havia lado para ficar confortável por causa das escoriações, e ainda era preciso ficar com a perna para o alto... uma ótima posição para ficar com insônia...
Uma semana de transtorno depois voltei ao médico, louco para tirar a tala do meu pé, mas ao ver meu tornozelo ainda inchado, tive um mau presságio, que se confirmou na forma de uma bota de gesso (aaahh!) e quarenta e cinco dias de afastamento. Ah, agora sim!

Pensei logo no diferencial para pior entre o desconforto já experimentado da tala e o futuro sombrio com aquela bota de cinco quilos de gesso presa ao meu pé. Na maluquice de ficar com aquela coisa por quarenta e cinco dias sem poder tirar. Sugeri ao médico um chique “robofoot”, aqueles aparelhos ortopédicos de plástico, tecido e velcro que dizem substituir o gesso. Mas o médico disse que não, que eu ia ficar tirando e recolocando... que o gesso era mais seguro e tal... é, o médico me conheceu bem em pouco tempo, pois se tivesse com o robofoot já teria tirado... já estou pensando em tirar o gesso com um martelo!
Tudo isso e mais um pequeno detalhe: ao ficar todo esse tempo afastado do trabalho, perderia minhas férias-prêmio (como funcionário público tenho direito a três meses de férias ou o equivalente em dinheiro a cada cinco anos trabalhados... desculpem...)

Escrevo isto no décimo dia após o acidente, terceiro dia de gesso, e embora as escoriações estejam quase curadas, a situação está complicada. Não tenho paciência de ficar em um mesmo lugar ou posição por mais de meia hora. Tenho sempre um monte de coisas bobas a fazer mas que dão um trabalho enorme em função da falta de mobilidade.

Parêntese importante: trabalho com projetos de construção civil e há tempos já não acho frescura se pensar em mobilidade para quem tem alguma deficiência física. Sempre imaginei que não era preciso ter alguma necessidade especial permanente para se ter dificuldade de locomoção frente a um mero degrau na calçada ou uma guia sem rebaixo. Bastava uma situação como a minha. E olha, quem tem deficiência física é herói!

Continuando a choradeira: Ao ficar dez minutos sem estar de perna para o alto, o pé dói bastante, inviabilizando qualquer passeio de muletas que dure mais que isso. Ou mesmo se ficar sentado com a perna em posição nivelada com o corpo a dor permanece.  Até pensei em voltar a trabalhar – não tanto porque sou exemplo de funcionário, mas para não perder minhas férias-prêmio... – mas é impossível nessa situação levantar e sentar na cadeira de minha mesa setecentas vezes por dia. 
Mesmo ao ficar com a perna para o alto, a posição de apoio tem de ser milimetricamente estudada para se tornar suportável. Mesma coisa acontece na cama. E olha que mudo de posição trocentas vezes durante o sono. Minha impaciência, definitivamente, não ajuda.

Passo os dias deitado ou sentado, com tempo para dormir, cochilar, ler todos os meus livros e revistas que estavam encostados por falta de tempo, confirmar que a tv aberta é uma porcaria, ficar navegando na net... e contando as horas para o retorno ao médico e enfim tirar esse troço do meu pé... se é que ele vai estar ali ainda (o gesso... não o pé).

 Coisas interessante que notei na situação de estropiado:

- A solidariedade da maioria. Tanto o rapaz sem nome que me acompanhou desde o tombo, passando pelos amigos, chefes, companheiros de trabalho e parentes que se colocaram a disposição para ajudar e torcem para meu pronto restabelecimento, não me esquecendo claro, da garotinha de uns quatro aninhos que passou por mim e falou para sua mãe: “coitado do moço, mãe... machucou a perna!”  Linda! Me chamou de moço!

- A babaquice de alguns. Tanto a idiotinha que achou mais legal tirar um sarrinho da minha cara de trouxa recém-caido do que ficar quietinha e se refastelar na sua própria baixeza pseudo-humanóide, quanto de uma pessoa que foi preterida da minha agradável companhia no fatídico dia e tascou um “Bem feito!” ao saber do acidente, como forma de vingança e graças aos céus pelo castigo que não veio a cavalo, mas de bicicleta. 
E também para outro que, magoado com uma brincadeira que que fiz – e que ele julgou de mau gosto (eu achei engraçadíssima, e a idéia original nem foi minha) – se regozija através do meu “sofrimento”, também imaginando que o tombo serviu como instrumento de vingança tardia ou que servirá como lição de vida para que eu não mais repita brincadeiras de “mau-gosto”, ou ainda para que esse meu “infortúnio” me torne uma “pessoa melhor”.

Tenho a dizer que essa idéia de que uma doença ou um acidente que alguém sofre não acontecem em função de seu bom ou mau comportamento.
Não acredito em um deus vingativo, barbudo com cara de mau, flutuando nas nuvens, pronto para mandar um raio em forma de castigo na cabeça de seus filhos. Ainda mais se esse castigo for desejado e endereçado através de uma prece enviada por um “irmão”.

Os que sofrem merecem ser confortados, independente de se gostar deles ou não. No mínimo merecem a paz de não ouvir asneiras ou ver comportamentos infantilóides de escárnio. Aí está a humanidade que falta a essas pessoas. É isso que nos faz diferentes dos animais.

Esse comportamento, em humanos em geral e particularmente em pessoas que julgava “amigas” só merece desprezo.

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