quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O regozijo do câncer alheio

Olha que bonito: os inconformados das redes sociais agora elegeram o câncer do Lula como  uma vendeta pessoal, a sensação de "bem-feito! deus afinal existe!" Um sentimento de aparente felicidade e secreto prazer, precisamente traduzido pela palavra alemã "Schadenfreude " (coisa que só um alemão conseguiria fazer direito...)

Está em voga também a modinha de impor o martírio do tratamento de um câncer pela saúde pública a um ex-presidente da república como maneira de punição pelo "abandono" imposto pelo seu governo aos cidadãos que dependem somente do SUS, Como se esse comportamento suicida fosse capaz de redimir os "malfeitos" de sua época como governante.

Uma mistura de desumanidade no primeiro caso e de cegueira simplória no segundo.

Quer dizer que deus usa o câncer como punição à sua criação? Ou o câncer é uma provação imposta pela "vida" aos maus atos de uma existência? Ou as pessoas inconscientemente são capazes de gerar em seu próprio corpo uma doença mortal diretamente relacionada com os pensamentos ruins, mágoas ou carmas negativos?

Pergunto: isso funciona só para o câncer dos outros, mais exatamente a quem você odeia? Ou funcionaria também para um câncer seu, ou para um câncer de alguém a quem você ama?

Como ninguém é uma unanimidade, tenho consciência da possibilidade de alguém não ter gostado de meu pai. E teria o mais profundo desprezo por quem pensasse que ele mereceu passar seus últimos 10 anos de vida percebendo lucidamente sua decadência física em função do mal de parkinson. Pode ser que alguém não gostasse de minha mãe. E teria asco de quem pensasse que ela mereceu a morte súbita que teve quando seu coração explodiu devido a um tamponamento cardíaco.

Não sou uma espécie de ser humano elevado, mas meu sentimento seria só de asco e só de desprezo. Jamais desejaria que a mãe de tal pessoa tivesse câncer no útero nem câncer no pulmão para que essa mesma pessoa sentisse na própria pele o que deseja para os outros e "aprendesse" a ser uma pessoa "melhor" com este infortúnio.

Como é possível debater tal insensibilidade, um radicalismo tão infantilóide, uma falta total e absoluta de humanidade e do mais básico sentimento de solidariedade?
Não é. Pelo menos para quem acredita, como eu, que a humanidade é naturalmente composta de pessoas melhores e pessoas piores.

E vou além: ambas "categorias" estão sujeitas às mesmas desgraças impostas ora pelo próprio meio de vida e ora pelo mais puro acaso.

Exigir que uma pessoa que tem à sua disposição meios para dispor de um tratamento de saúde da melhor qualidade capaz de salvar sua vida - seja por que motivo for: direito, fama, grana - abra mão desta possibilidade para atender à sede de vingança, inveja e frustração de quem cobra tal atitude é de uma inferioridade moral e ética de profundidade abissal, já que escancarada a mesquinhez da exigência, essa recíproca nunca seria verdadeira.

Ou seja: se existisse a possibilidade, quem cobra essa atitude - devido à sua mesquinhez inata - não seria capaz de demonstrar a grandeza de materializar o ato que cobra dos outros.




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