Dois gatos habitam minha casa. Ou melhor: um
gato e uma gata. Um gato branco de dez anos chamado Mingau e uma gata preta de
dois anos chamada Nina. O Mingau já está velho e ranzinza, mas a Nina está em
plena adolescência. Ela sempre foi mais arisca e mais rústica que o fresco do
Mingau. E também uma excelente caçadora.
Nada que se mexa escapa da sua
curiosidade e das suas garras, pode ser um inseto da grama do jardim
(mariposas, borboletas, gafanhotos, besouros, baratas, formigas), ou sapos,
lagartixas... e passarinhos.
Numa manhã de sexta-feira, como
ela faz diariamente, a Nina miou debaixo da minha janela para que eu a deixasse
entrar pelo parapeito num salto ágil. Só que ele não entrou dessa vez, sua
atenção foi desviada para o barulho de umas andorinhas sobrevoando o quintal da
casa.
A casa onde moro foi projetada
também para abrigar meus gatos, com passagens livres entre os quintais, muros e
portões altos para que não houvesse perigo de que eles escapassem para as casas
vizinhas e corressem o risco de se transformar em alvos de vizinhos ignorantes
ou cachorros idem.
Percebi que a Nina não entrou,
percebi o barulho das andorinhas e logo ouvi um pio de desespero de uma delas.
Olhei pela janela e a Nina já estava com uma delas entre suas pequenas
mandíbulas. Ainda viva mas paralisada pelo terror.
Fiquei observando e notei que a
gata permaneceu um tempo com sua presa na boca, estática, provavelmente para sufocar
a pequena vítima com o encaixe providencial que tem entre os dentes das
mandíbulas superior e inferior, talhados à perfeição por milhares de anos de
evolução especificamente para interromper o fluxo de oxigênio enviado pelos
vasos sanguíneos através do pescoço para o cérebro da pequena ave.
Mas, antes de a andorinha
finalmente morrer, a gata soltou-a e se estendeu e se esticou de costas no chão
– como ela faz quando se espreguiça sob o sol da manhã – e dava pequenos
piparotes no pequeno corpo inerte da ave... demonstrava grande prazer, estava
se vangloriando de quão grande caçadora era e desfrutava da glória de ter
subjugado a presa...
Como a pequena ave não estava
morta ainda, guardava alguma força e tinha espasmos na tentativa tardia de
escapar. Mas a Nina ficava na espreita e dava pequenos golpes com as garras, às
vezes jogando a andorinha para o alto como uma peteca.
Não vi crueldade nisso,
como se a gata estivesse “brincando” com a futura refeição, mas talvez ela
quisesse dar uma última chance de sobrevivência para a andorinha ao mesmo tempo
que demonstrava sua supremacia, um lampejo de piedade misturado com um tanto de
sarcasmo... sei lá...
Mas aí lembrei de que já havia
visto pequenos restos de andorinha sob a grama do quintal. As andorinhas são
muito mais ágeis e espertas que pardais, seu voo é muito rápido e preciso. Como
a Nina ainda não aprendeu a voar (se bem que o crescimento de asas em gatos
talvez pudesse ser um efeito colateral dos cereais transgênicos indicados no
grande T amarelo estampado na embalagem da ração, mas acho que não... ainda) e
não há como ela pular ou escalar os muros devido a altura, só posso imaginar
que a andorinha pousou no quintal de uma casa onde moram dois gatos. Burrice?
Imprudência? Ou talvez ela tenha percebido o Mingau em sua letargia da terceira
idade felina e foi fazer uma provocação ao gato branco lerdo que –“não consegue
me pegar-ar hahahaha” e vupt, foi abocanhada pela gata preta que não tinha visto. Hahaha!
PS: Citei a ração que é da melhor
qualidade, é servida em quantidade mais que suficiente, e aos domingos ambos
ganham pacotinhos de ração úmida que eles adoram... A andorinha ficou
estendida sobre a grama por dois dias até que resolvi dar um destino digno ao
pequenino cadáver. A Nina não comeu.


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