quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Eureka!

"...
A idéia básica está presente em diferentes linhas do Budismo: o que nos faz sofrer é o APEGO. Na vida, o apego se manifesta por uma reação de cobiça ou aversão. Queremos continuar sentindo o que nos dá prazer e não aceitamos sentir o que nos causa algum tipo de dor. Se aprendermos a arte do desapego - ou seja: não cobiçar o prazer e nem sentir aversão pela dor - , a fonte do sofrimento estanca. Para isso, precisamos compreender que a vida é IMPERMANÊNCIA. Que nada dura, nem o prazer nem a dor. É necessário realmente entender que tudo é efêmero e, portanto, só a IGNORÂNCIA nos leva a qualquer tipo de apego - e ao sofrimento.
A (meditação) é uma prática. Sem prática, os mestres acreditam que a filosofia se torna vazia, um exercício intelectual sem importância. ... é ensinado que Sidharta Gautama, o Buda histórico, teria percebido que cada reação de aversão ou cobiça causa uma espécie de nó em nosso corpo. E só removendo - fisicamente - esses nós, e não fazendo outros, poderíamos parar de sofrer. Como técnica, a (meditação) pode ser usada por adeptos de qualquer religião ou de nenhuma.
Um exemplo prosaico: eu adoro comprar sapatos. Buda poderia dizer que não é o sapato que compro - e Karl Marx concordaria... O que busco é repetir a sensação que sinto ao comprar um sapato. Não percebo que, por mais que gaste meu salário tentando transformar uma sensação prazerosa em permanente, ela vai passar e eu tou ter que gastar mais dinheiro para repeti-la. É cobiça, é apego. É ILUSÃO.
Se Buda tivesse conhecido esse mundo de consumo, provavelmente o veria como uma fonte permanente de sofrimento causado pela cobiça. NOS TORNAMOS ESCRAVOS DAS SENSAÇÕES, COM TODAS AS IMPLICAÇÕES NA VIDA QUE A ESCRAVIDÃO REPRESENTA. Uma pessoa pode passar a vida num emprego ruim, mas com um bom salário, só para ter a sensação efêmera causada pelo ato de consumo. Ou pelo poder que um cargo de chefia supostamente lhe dá. Ou pela sensação oposta, mas igualmente de apego, que é a idéia de que não sabe o que vai acontecer se tentar algo novo na vida.
Essa idéia a maioria de nós já ouviu por aí ou leu num livro de auto-ajuda. Mas compreender algo intelectualmente é fácil. Mudar é bem mais difícil. Quem faz anos de terapia às vezes se desespera porque já entendeu as razões que o levam a um tipo de comportamento destrutivo. Mas entender não é suficiente. Mudar é o processo mais difícil na vida, especialmente mudar o fundionamento da mente desde que nascemos. É aí que entra a técnica da (meditação).
... a parte mais difícil da prática: ser equânime. Observar, sem reagir, as sensações sutis e também as grosseiras. Na (meditação) essas são as duas únicas categorias para classificar as sensações. Eles não chamam sensações grosseiras de dor ou dizem que um arrepio de prazer é bom porque implicaria um julgamento da realidade, início do apego.
O objetivo é aprender a olhar o prazer e a dor com uma serenidade de quem sabe que tanto um quanto o outro vão mudar, passar. Isso não significa que vamos virar uma alface... é a paz interior conquistada pela consciência de que não podemos controlar nem o mundo nem os outros, mas podemos controlar como vamos lidar com o mundo e com os outros. Sem aversão ou cobiça, é possível viver o presente sem ansiedade pelo sofrimento futuro ou nostalgia pelo passado.
..."

(texto transcrito da Revista Época de 17/01/08, reportagem "O inimigo sou eu" de autoria de Eliane Brum, com todo respeito e admiração)

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